Um feriado passado entre a A11, a A7 e outras estradas de Portugal

Dia de Camões. Dia de Portugal. Feriado nacional e eu às voltas de carro sozinha, mais ou menos muito perdida, com um destino que devia ter ficado a mais ou menos um hora de casa. Foi assim que passei o meu feriado há um ano atrás. Não estão a entender nada? Pois bem, eu conto-vos tudo ao pormenor.

Com o feriado do 10 de Junho a calhar numa segunda-feira, o fim-de-semana grande devia ser dedicado ao relaxamento da mente e do corpo, mas o meu foi passado entre idas e voltas entre casa e Labruge, Labruge e casa, casa e, depois de muitas terras e terrinhas, Labruge.

Para quem desconhece a existência de Labruge, é uma terra na costa norte de Portugal, muito perto do famoso Outlet de Vila do Conde, um pequeno paraíso na terra do qual já falei aqui no blogue.

Graças ao fim-de-semana prolongado, o «programa das festas» foi rapidamente desenhado e decretado, simples e eficaz, sem espaço para grandes falhas. Iria no sábado à noite com os meus pais passar a noite e a manhã de sábado à praia. Regressaria a casa a meio da tarde para ir à festa de anos da minha melhor amiga. Voltaria na manhã seguinte à casa da minha irmã e passaria a tarde de feriado em família à beira mar.

Agradável, moldável à minha agenda preenchida, simplesmente perfeito. Pelo menos era o que parecia e tudo estava a correr segundo o plano até à viagem de regresso a Labruge, no dia 10.

Dia 10 de Junho, dez da manhã estou eu a acordar para deixar tudo arrumado em casa (como a filha linda que sou), tomei um pequeno-almoço elaborado como já não faço há muito tempo, visto-me, tranco as portas, meto-me no carro e programo o GPS para ir pela estrada nacional.

São onze e um quarto da manhã, só tinha de estar lá para a hora do almoço, ou seja, uma da tarde, pelo que tinha todo o tempo do mundo para lá chegar e ainda chegaria mais cedo.

Ao programar o GPS, reparo que o telemóvel tinha 78% de bateria, recordo-me como se estivesse a segurar o telemóvel novamente, na minha cabeça aquilo seria mais do que o suficiente para lá chegar…

Vou feliz e contente, conduzindo estrada fora. Feliz pela inexistência de trânsito e maravilhada pelas vinhas e quintas que ia passando ao longo do percurso. Recordo-me que cantei o caminho todo, mesmo o rádio não funcionando. Estava entusiasmada por ir passar o meu feriado junto ao mar e por ser a filha responsável que chega atempadamente às coisas. Se calhar auto-gabei-me demais e o destino decidiu castigar-me.

Seguia contente estrada fora, ouvindo ocasionalmente a voz robótica da mulher que habita no meu GPS, que lá se lembrava de exigir que eu virasse à esquerda e à direita, saísse da rotunda, sempre em intervalos muito grandes de tempo entre cada ordem. O caminho era muito a direito, sem muito para onde se tivesse de virar, pelo que não estranhei quando ao longo de quilómetros, depois de ter passado a Trofa, a mulher do GPS se mantivesse silenciosa.

Continuei sem suspeitar de nada até que cheguei a uma rotunda já na Maia e ela não me dá indicações sobre a saída a seguir. Nunca ali tinha estado e o alarme dentro do meu cérebro disparou. Arranquei o telemóvel do lugar onde o tinha pousado e o ecrã estava completamente negro, tentei ligá-lo, mas anunciava que estava com falta de bateria e desligava-se logo.

Era meio-dia. Estava num lugar que desconhecia por completo. Sem telemóvel para aceder ao GPS ou para informar os meus pais que poderia chegar ligeiramente atrasada. Armei-me em campeã e apercebendo-me de uma placa que indicava «Matosinhos / Aeroporto» segui em frente.

Na minha cabeça parecia que seria a decisão mais certa a tomar. Se conseguisse encontrar direções para o MarShopping, conseguiria seguir dali até ao destino sem GPS e se fosse para o aeroporto, tinha uma vaga ideia que ficava relativamente perto e que poderia haver por ali sinalética que me pudesse ajudar.

Segui durante quilómetros a mesma placa até que fui obrigada a escolher ou Matosinhos ou o Aeroporto e, naquela pressão do momento, optei por Matosinhos. Durante essa fase, eu tinha dois pensamentos: que de certeza que iria encontrar a saída que eu procurava e que chegaria a casa a tempo e este infortúnio não passaria de uma história, para nos rirmos durante a sobremesa.

Estas ideias animaram-me até ao momento em que me apercebi que devia ter perdido alguma saída e quando dei por mim já estava mesmo perdida e sem saber para onde me virar.

Ao ver que quanto mais andava, mais confusa ficava, olhei para o ponteiro do depósito do carro e tomei aquela decisão difícil. O improviso não me estava a levar a lado nenhum, o melhor seria seguir em direção a onde eu conhecia e tentar encontrar uma área de serviço onde pudesse pedir um telemóvel emprestado e contactar os meus pais, só para informar de que estava bem.

Segui pela A11 em direção a Vila Real, sabendo que eventualmente surgiria a saída para Guimarães/ Braga, a partir dali nem precisaria de GPS e poderia seguir caminho. Fui passando por tabuletas que indicavam áreas de serviço, mas para as encontrar tinha de sair da rota que conhecia.

Sem relógio no pulso, nem no carro, ia vendo as horas passar naqueles ecrãs ao longo da autoestrada. Sabia que eles só se aperceberiam do meu atraso quando fosse uma da tarde e eu ainda não tivesse chegado. Até àquele momento, estava tranquila e não estava preocupada, sabia onde estava e para onde seguia. O problema surgiu quando no relógio da autoestrada começaram a aparecer 13:30, 14:00. O pânico instalou-se.

O meu telemóvel estava sem bateria, de certeza que me estavam a tentar ligar para saber onde estava e o facto de as chamadas irem parar diretamente ao voice mail podia fazê-los acreditar que me tinha acontecido alguma coisa.

A consciência de que os meus pais não sabiam de mim, nem eu lhes podia dizer que estava bem, atrofiou-me e o stress foi tal que dei cabo de todas as unhas da minha mão direita sem ter noção disso.

Tentei ligar novamente o telemóvel, mas a luz do ecrã nem sequer acendeu. Surgiu então a indicação de uma bomba de gasolina a 2 km e eu só pedia que por favor houvesse alguém que me emprestasse um telemóvel para eu entrar em contacto com os meus pais. Eram duas e quinze quando por fim, graças à senhora muito simpática do posto da BP de Lousado, na A11, que me emprestou o seu telemóvel pessoal, é que consegui falar com os meus pais.

Estava cansada, só queria ir para junto dos meus pais para os sossegar e para eu própria sossegar. Quando o meu telemóvel ficou com bateria suficiente para ligar, disparou a vibrar com a quantidade de notificações recebidas enquanto estava desligado. Tinha 7 chamadas não atendidas, umas mil mensagens das minhas irmãs e outras quantas do meu namorado, que não entendia o que se estava a passar.

Carreguei então o telemóvel até aos 25% e segui caminho pela autoestrada até Labruge, sem ponderar meter-me noutra aventura pela nacional. Queria lá chegar o quanto antes para poder respirar finalmente.

Entrei no posto da BP às 14h15, saí de lá às 14h45, com o mapa decorado para o caso de a bateria me deixar ficar mal novamente. Cheguei ao destino faltava um quarto de hora para as quatro da tarde.

Levantei-me cedo para aproveitar o dia e acabei a passar o feriado algures entre a A11, a A7 e outras estradas de Portugal. Atraiçoada pelas novas tecnologias e pela bateria que decidiu naquele dia apenas meter-se comigo.

Onde não há morte, não há má sorte! Mas que podia ter só tido um bocadinho mais de sorte podia.

Foi um caso único e agora consigo vir pela nacional e pela autoestrada sem a ajuda do telemóvel. Se eu não adormecesse tantas vezes no carro quando vinha com os meus pais, talvez tivesse decorado o trajeto e nada disso tivesse acontecido. O que importa é que tudo acabou bem e, pelo menos, tenho uma aventura para contar mais tarde. Não que me orgulhe dela, mas agora consigo-me rir do que aconteceu.

E vocês? Alguma vez passaram por peripécia semelhante?

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