Especial: Dia do Enfermeiro

Há dois anos, depois de a minha mãe ter tido sofrido uma queda infeliz que a levou a ter de ser operada a um pé, escrevi um artigo para o meu blog da altura, em que explicava aos leitores e às pessoas no geral, o porquê de não ter seguido as pisadas dos meus pais.

Os meus pais são ambos enfermeiros há vinte e oito anos e eu sempre os vi como super heróis sem capa. Sempre os vi assim, mesmo antes desta pandemia e dos aplausos feitos nas varandas.

Eles sempre foram enfermeiros, os “soldados” como muitos lhes chamam, sempre deram o seu melhor para ajudar a pessoas… Os enfermeiros não surgiram com a pandemia, o trabalho deles apenas se revelou importante quando as pessoas se lembraram que eles eram fundamentais no sistema nacional de saúde. Assim como os médicos, auxiliares, serviços de limpeza, seguranças e funcionários da restauração, que todos os dias trabalhavam em prol da saúde de todos. Sim, muito antes desta pandemia surgir e de vir abrir muitos olhos, já eles se dedicavam a salvar e a ajudar pessoas.

Esses olhos que se abriram, infelizmente, daqui a uns anos, voltarão a fechar-se. Essas pessoas voltarão a não entender quando os enfermeiros e os profissionais de saúde se queixarem novamente de falta de condições de trabalho, de falta de material e equipamento médico. Sim, os que aplaudem hoje, são os mesmos que voltarão a atirar pedras no futuro. Infelizmente, poucos vão ser aqueles que se vão recordar-se do trabalho, da dedicação, das horas extras e das privações que estes profissionais de saúde tiveram durante estes meses.

Mas, tirando tudo isso, hoje partilho convosco aquele que foi o meu artigo sobre o porquê de não ter seguido as pisadas dos meus pais. Um texto que conta com dois anos, com peripécias e percalços que já lá vão, mas que ainda hoje servem de justificação. Um texto que eu achei que fazia sentido partilhar para sinalizar este dia.

«Ao longo dos anos, vivi situações bastante caricatas e muito engraçadas, no que toca à minha relação com a área da saúde no geral. Como dizem os antigos: «em casa de ferreiro, espeto de pau», e não é que é mesmo? Os meus pais são ambos enfermeiros e exercem há vinte e seis anos. Sempre convivi com a profissão deles de perto, nem vos digo, nem vos conto, como esta relação tem sido uma montanha-russa de aventuras. Se eu me pusesse a contá-las todas, escrevia uma saga de livros maior do que a do Harry Potter e eu não quero tirar a J.K. Rowlings dos tops de vendas.

Porque é que vos estou a contar isto? Porque ontem numa conversa com uma amiga da minha mãe, dei por mim a ter de responder pela milésima vez à tão popular questão: «Então, não quiseste ser enfermeira como os teus pais?». A esta pergunta respondo sempre com a versão mais sintetizada: «nah, eu não fui feita para isso». Isto é a resposta curta, mas a resposta a essa questão é muito mais aprofundada e fundamentada por uma série de peripécias do arco da velha que só Deus sabe e que, só agora, dão vontade de rir.

Afinal umas horas antes dessa pergunta ter sido colocada, vivi um momento muito “dramático” e que, já só por si, responderia à pergunta. Pois nessa mesma manhã, quando fui visitar a minha mãe ao hospital, no dia seguinte a ela ter sido operada, entrei no quarto e pensei que ia morrer. Bastou-me ver o catéter venoso espetado no braço dela e minha nossa Senhora, o mundo começou a girar, o meu cérebro a comprimir e a vista a ficar areada.

Numa situação normal, recorreria à minha mãe, afinal toda a gente sabe que as mães foram criadas para solucionar todo o tipo de problemas, mas aqui, nesta situação, não podia recorrer a ela, não quando ela estava acamada e com um pé engessado.

Respirei fundo e comecei a rezar para que o mundo parasse de girar, não queria preocupá-la, mas parecia que aquele desconforto não acalmava. Não queria dar parte fraca, porque ela estava com visitas, então vasculhei na minha bolsa, que mais parece a bolsa da Mary Poppins, de tão atulhada que anda sempre e desencantei um pacote de açúcar. Fui até à casa de banho em marcha atlética e e emburquei o pacote de açúcar. Digo-vos uma coisa, comer açúcar com açúcar é intragável, mas a verdade é que lá surtiu efeito e só mais tarde contei à minha mãe o que se tinha passado. Ela riu-se porque já sabe que eu não tenho remédio. Tenho uma avaria de fabrico para a qual já não há solução.

Como se esse episódio não bastasse para esclarecer a minha falta de vocação, no dia seguinte surgiu mais um episódio para poder varrer qualquer réstia de dúvida que tenha permanecido relativamente a isso. Na clínica, onde eu trabalho aos sábados de manhã, apareceu um menino pequeno para fazer análises ao sangue. Tive pena dele, como tenho de todos, se eu detesto fazer análises, compreendo perfeitamente que também odeiem.

O problema é que pela primeira vez, após dois anos, fui recrutada para ir ajudar dentro da sala de colheitas. O rapaz estava decidido que não queria fazer as análises e pediram-me que o fosse distrair. Se o catéter foi o circo que foi, conseguem imaginar a minha reação a ver a agulha a entrar na pele de alguém e a ver o sangue encher o tubo. Eu pensei que me daria ali o verdadeiro badagaio.

Entrei, pus o meu melhor sorriso, pois o menino não precisava de mais incentivos para não querer fazer as análises, e dediquei-me à conversa de chacha enquanto lhe segurei a mão. Falamos de futebol, de namoradas, aquelas coisas que se perguntam às crianças, sempre com o cuidado de me pôr ligeiramente de costas para o enfermeiro para não ver a agulha. Se não a visse, sobreviveria para contar, mas a sorte não estava do meu lado e por azar do destino vi tudo.

Mostrar coragem a alguém, quando te sentes a desfalecer por dentro é horrível. Quando saí da sala tremia como varas verdes. Nesse instante, enquanto tentava controlar os tremores, dei por mim a rir. Afinal se as pessoas me vissem naquele momento, nunca mais voltaria a questionar o porquê de não ter seguido as pisadas dos meus pais.

Afinal os enfermeiros para mim são super heróis, não penso isso só porque os meus pais o são, mas pelo facto de eles terem de lidar com florzinhas de cheiro como eu, todos os dias e conseguirem dar sempre a volta à situação. O problema é que essa vida não foi feita para mim. Podia contar-vos mais episódios, mas fica para outra altura, para outro artigo, senão este torna-se tão longo quanto uma tese de doutoramento. »

Dois anos se passaram, as palavras e o sentimento mantêm-se. Os episódios ainda são recorrentes e alguns até demasiado embaraçosos para serem partilhados. Por ser assim tão “florzinha de cheiro” e pelas diversas vezes em que os enfermeiros se revelaram fundamentais em situações mais infelizes, acabo por lhes dar muito mais apreço.

Ser profissional de saúde não é fácil. Por vezes dedicam o seu dia a lidar com pessoas que não lhes dão o devido valor, a aturar pessoas mal educadas e com falta de caráter, mas continuam a tratar essas mesmas pessoas com dedicação, ignorando o despeito destes. Mantiveram-se “nas trincheiras” como muitos lhes chamam, mesmo depois de terem sido “apedrejados” não faz muito tempo.

Hoje mais do que nunca, faz sentido celebrar o dia do Enfermeiro e eu quero em especial desejá-lo e dedicar este artigo aos meus dois heróis, os meus pais.

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