Caminhada de Fé até São Bento da Porta Aberta

Não é a primeira vez que me meto nesta aventura de fazer ao caminho (a pé) até São Bento da Porta Aberta. Vinte e quatro quilómetros de subidas consideráveis e descidas acutilantes, mas uma caminhada que vale cada bolha, cada unha negra, cada dor muscular nos dias seguintes e todas as outras coisas “fantásticas” que possam advir da aventura. Se a sensação nos dias que se seguem é de que fui atropelada por um camião, porque é que me decidi a repetir a experiência? O melhor é começar pelo principio.

Há decisões que fazemos ao longo da vida das quais nos arrependemos mais tarde. Não ter ido à missa da benção no fim da minha licenciatura foi um dos arrependimentos que me andava a perseguir nos últimos dias. Terminei a minha licenciatura fez em Maio dois anos e por motivos que agora me parecem ridículos, e fruto de uma certa infantilidade, decidi que não fazia sentido ir à missa de finalistas. Sou católica e acredito, sou catequista desde os meus quinze anos e como todos, passei por uma certa fase de rebeldia em que pus muita coisa em questão. O que aconteceu foi que mesmo com uma certa revolta (da qual não irei falar aqui) tive sempre um anjo da guarda a olhar por mim esse tempo todo e de há uns dois anos para cá, tive episódios ligados ao mundo do trabalho e não só em que sei que fui “protegida”, por assim dizer.

Por isso, senti que estava na altura de resolver-me a emendar o meu erro e a encontrar alguma paz de espírito, pelo que me decidi lançar nesta caminhada com o meu pai, de tricórnio de finalista na mochila e me fiz ao caminho. Saí de casa por volta das quatro da manhã, ainda o sol se encontrava escondido e a natureza sossegada. Por nós passavam apenas os camiões de mercadoria e os jovens que ou iam ou regressavam das discotecas. Ainda meia ensonada, à espera que o primeiro café de muitos daquele dia surtisse efeito, vi a aurora e o despertar dos animais. O cantar dos pássaros que acordavam com os primeiros raios de sol, o som leve da brisa a passar por entre a ramagem das árvores que sobrevoavam as nossas cabeças e, ocasionalmente, cruzávamos com um carro ou outro.

O caminho é belo, mas monótono até chegarmos ao inicio da longa descida até às pontes do Gerês. É alcatrão, campos e casas, alcatrão, campos e casas… Mas quando começamos a descer, por muito que seja a parte mais difícil de todo o caminho, a paisagem é de cortar a respiração e compensa toda a dor que possamos estar a sentir. Começa como um breve vislumbre do rio no horizonte até que nos vamos aproximando cada vez mais e a linha passa a um traço e o traço a um rio largo, com encostas repletas de casas e de campos em degrau. Onde tudo o que vemos parece um magnifico postal e nos custa acreditar como podem haver lugares tão belos e tão perto de casa. Faço este caminho de carro desde criança, a pé já o fiz com uma entorse e desta vez com bolhas nos calcanhares e nunca, mas nunca, me deixa de surpreender a variada paleta de verdes e azuis que uma paisagem como aquela contém. Uma paisagem absolutamente mágica que me deixa sempre deslumbrada.

Chegamos ao destino 4 horas e meia depois. Com os meus pés a latejar com as dores, que mais tarde se percebeu serem resultado de duas bolhas horríveis nos calcanhares e duas unhas negras, e depois de sermos “perseguidos” por cães “selvagens e ferozes” que fugiam cada vez que olhávamos para eles, chegamos a São Bento e não há sentimento como o do momento da chegada. Uma paz de espírito que enche a alma de uma satisfação e um sentimento de concretização que abala qualquer dor, qualquer cansaço ou pensamento mais negativo. Foi uma caminhada de muita introspeção e com um propósito muito particular e muito meu. Trago-a na minha memória e no meu coração e mesmo depois das dores musculares que demoraram dois dias a desaparecer, voltava a fazer o caminho com a mesma vontade.

E vocês já alguma vez fizeram uma caminhada de fé?

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